A facilidade de fazer uma aposta pelo celular, a promessa de dinheiro rápido e a sensação de recompensa a cada jogada escondem um problema que tem chegado cada vez mais às famílias: a dependência em jogos de azar. O assunto esteve no centro da palestra “Ludopatia: causas e danos”, realizada na quinta-feira (13), no plenário da Câmara Municipal de Cotia.
Promovido pela Secretaria de Trabalho e Renda, o encontro reuniu representantes do poder público e profissionais da saúde para discutir os mecanismos que podem levar à dependência, os impactos financeiros, sociais e emocionais provocados pelo jogo e os caminhos para prevenção e tratamento.
A ludopatia é reconhecida como um transtorno relacionado ao comportamento de jogar de forma persistente ou recorrente, mesmo diante das consequências negativas. Com a popularização das plataformas de apostas on-line, as chamadas bets, o acesso ao jogo passou a caber na palma da mão e o debate ganhou ainda mais urgência.
Na abertura do encontro, o secretário de Trabalho e Renda, Michel Alves, chamou a atenção para os reflexos da dependência sobre toda a estrutura familiar, especialmente quando o dinheiro destinado às despesas básicas passa a ser utilizado em apostas.
“É um vício que arruína famílias. Estamos vendo pessoas se endividando e situações extremas provocadas pelo jogo. Precisamos falar sobre isso e também nos perguntar se estamos preparados para lidar com o crescimento e regulaziração das bets”, afirmou.

Quando o prazer vira dependência
A secretária da Mulher, Direitos Humanos e Neurodiversidade, Solange Aroeira, que é Psicóloga, destacou que as dependências podem assumir diferentes formas e que ninguém começa a apostar imaginando que perderá o controle.
Segundo ela, as plataformas digitais acrescentaram novos elementos a esse cenário ao tornarem as apostas rápidas, acessíveis e disponíveis permanentemente.
“Ninguém começa a apostar achando que vai se tornar dependente. Começa tentando a sorte. O problema é quando o prazer vira dependência”, disse.
Solange destacou ainda o mecanismo de recompensa envolvido nas apostas. “Ganhar provoca uma sensação de prazer; perder pode estimular uma nova tentativa para recuperar o dinheiro, criando um ciclo difícil de interromper”.
Para a secretária, enfrentar o problema exige uma atuação que ultrapasse o tratamento individual. “Precisamos pensar em políticas públicas efetivas. Precisamos falar de saúde mental e entender que prevenção também é política pública”, afirmou.
A mente em jogo
A psicóloga Evenyn Uchôa conduziu a palestra a partir da história fictícia de Carlos, um homem jovem, com trabalho e família, vida estabilizada que começou a jogar por curiosidade. O que parecia apenas diversão foi ganhando espaço até que, meses depois, as apostas passaram a controlar sua rotina.
A história serviu para mostrar que a dependência não surge necessariamente de maneira abrupta e pode atingir pessoas com diferentes perfis.
“Todos os dias temos pequenos vícios que nos alimentam”, observou a psicóloga.
Evenyn lembrou que, durante muito tempo, os jogos de azar estavam associados a ambientes específicos, a pessoas com alto poder aquisitivo e eram menos acessíveis. Hoje, basta um celular conectado à internet. A publicidade e a exposição constante nas redes sociais também entram nessa equação.
Hoje, o acesso pelo celular e a divulgação feita por influenciadores digitais ampliaram a exposição da população. Ela provocou uma reflexão sobre o conteúdo consumido nas redes sociais: “quem recebe atenção, seguidores e audiência também exerce influência sobre comportamentos e escolhas. “Para quem você está dando palco? Onde você está clicando?”, provocou.
Durante a apresentação, a psicóloga mostrou estudos que apontam alterações em circuitos cerebrais relacionados à recompensa, à tomada de decisão e ao controle dos impulsos. O jogo pode ativar sistemas de recompensa também envolvidos em outros comportamentos aditivos e, com a perda de controle, a pessoa continua apostando mesmo diante de prejuízos e consequências negativas.
A expectativa da próxima aposta ajuda a manter o ciclo, inclusive quando as perdas já se acumulam.
Não existe uma causa única
Outro ponto abordado foi a vulnerabilidade à dependência. Fatores genéticos e neurobiológicos, características individuais, condições de saúde mental e o ambiente em que a pessoa vive podem se combinar e aumentar o risco.
Impulsividade, dificuldade para controlar emoções, baixa tolerância à frustração, exposição precoce aos jogos, dificuldades financeiras e falta de suporte emocional estão entre os fatores que podem aumentar a vulnerabilidade.
A apresentação também apontou que ansiedade, depressão, TDAH, transtornos de humor e uso de substâncias aparecem frequentemente associados a problemas com apostas.
“Todos somos vulneráveis, mas algumas pessoas apresentam fatores que aumentam essa possibilidade”, explicou Evenyn.
A psicóloga ressaltou ainda que a dependência não afeta somente quem joga. “É muito fácil pensar que a escolha está nas mãos da pessoa, mas o que a gente faz afeta a vida de quem está junto da gente”, afirmou.
Ao mesmo tempo, reforçou uma das principais mensagens do encontro: há tratamento e é possível sair da dependência.

Impacto chega às famílias
A presidente do Fundo Social de Cotia e chefe de gabinete do vice-prefeito, Gleides Sodré, destacou que os efeitos das apostas já aparecem no atendimento social e defendeu maior atenção dos governos para a nova realidade criada pelas bets.
Segundo ela, há situações em que recursos destinados às necessidades básicas da família acabam sendo gastos em jogos e, posteriormente, essas mesmas famílias procuram a rede socioassistencial em busca de alimentos.
“O dinheiro que deveria atender às necessidades da família está indo para o jogo e depois essas pessoas precisam buscar cesta básica. O jogo está afetando as famílias, os seus esteios, os amores da vida da gente. Precisamos acordar para esse tema”, afirmou.
Gleides também chamou a atenção para a influência exercida por personalidades e produtores de conteúdo que divulgam plataformas de apostas, especialmente entre os mais jovens. Para ela, o enfrentamento exige atenção, responsabilidade social e uma legislação mais rigorosa.
Tratamento existe, mas preconceito ainda afasta pacientes
Profissionais do Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) que participaram do encontro explicaram que pessoas com dependência em jogos já procuram atendimento na rede de saúde mental, mas um dos desafios é garantir a continuidade do tratamento.
De acordo com as profissionais Priscila e Juliana, alguns pacientes iniciam o acompanhamento e acabam abandonando o processo. O preconceito e a dificuldade de reconhecer a dependência como um problema de saúde estão entre os fatores que prejudicam a adesão.
O serviço conta com um grupo específico, denominado Sorte e Azar, voltado ao acompanhamento de pessoas com problemas relacionados aos jogos.
Além de procurar ajuda profissional, Evenyn reforçou a importância da atenção de familiares, amigos e colegas às mudanças de comportamento. Observar o que as pessoas próximas estão consumindo e seguindo nas redes sociais também pode ajudar na prevenção.
A prevenção também está na rotina diária das pessoas. Manter a mente ocupada, investir tempo em cursos de capacitação, empreender está entre os caminhos defendidos pela equipe do projeto Viva Bem, da Casa União Lar Sama, representada pelo professor Luís Ferro e Carlos Hering que trabalham na orientação e conscientização para que as pessoas saiam do ciclo vicioso.
Debate pode avançar para legislação municipal
O chefe de gabinete do prefeito, Edgar de Souza, classificou o debate como fundamental e defendeu o envolvimento de diferentes setores da sociedade no enfrentamento ao problema.
Durante o encontro, Edgar informou que o Gabinete trabalha em uma proposta de projeto de lei relacionada à publicidade de plataformas de apostas no município.
“É um tema fundamental e um debate importante. Temos que nos envolver”, afirmou.
A discussão realizada em Cotia mostrou que, por trás da tela do celular e da promessa de uma aposta rápida, pode existir um problema complexo, capaz de comprometer renda, relações familiares e saúde mental.
Reconhecer os sinais, falar sobre o assunto sem preconceito e ampliar o acesso à informação e ao cuidado são passos importantes para impedir que aquilo que começa como uma tentativa de “dar sorte” termine tomando o controle da vida.
Como buscar Ajuda:
Se você ou algum familiar passando por dificuldades devido ao vicio em jogos, não precisa passar por isso sozinho, procure ajuda.
CAPs Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (CAPS AD)
Rua Topázio, 318 – Jardim Nomura.












