Alunos da EJA lançam livro com histórias de vida, poesia e superação

Projeto “Escrevivências” transforma experiências de estudantes da Educação de Jovens e Adultos em obra literária e revela novos autores

“Não pude ir à escola,

meu pai não me deixou.

Mas a vontade de aprender

no meu coração ficou.”

Os versos escritos por Judite Maria Rosa de Lima, escolhidos aleatoriamente, resumem a essência de uma noite marcada por emoção, reconhecimento e celebração da educação. Na última terça-feira (3), o Teatro Municipal Regente Pio recebeu o lançamento do livro Prosa que Ensina, Vida que Inspira, obra produzida por estudantes da Educação de Jovens e Adultos (EJA) da rede municipal de Cotia.

O evento reuniu alunos, familiares, professores, gestores da educação e convidados para celebrar a publicação que reúne poemas, contos e relatos inspirados nas histórias de vida dos próprios estudantes. Mais do que um lançamento literário, a cerimônia representou o reconhecimento de trajetórias marcadas pela persistência, pelo desejo de aprender e pela superação de obstáculos.

A obra é resultado do projeto pedagógico Escrevivências, desenvolvido ao longo de 2025 em cinco escolas da rede municipal. Inspirado no conceito criado pela escritora Conceição Evaristo, o projeto incentivou os alunos a transformarem suas experiências pessoais em produção literária.

Durante meses, professores trabalharam poemas, contos e atividades de produção textual dentro das salas de aula, estimulando os estudantes a descobrirem a força das próprias histórias. O foco principal esteve nos alunos da primeira etapa da EJA, muitos deles em processo de alfabetização.

Para quem divide o tempo entre trabalho, filhos, afazeres domésticos e os estudos, cada página escrita representou uma conquista.

Juliano Barbosa

Descobrindo escritores onde antes havia silêncio

Uma das responsáveis pelas oficinas literárias, a poeta Juliana Fernandes de Souza, conhecida como Ju Poetiza, conta que o envolvimento dos alunos superou todas as expectativas.

“Eu não imaginei que eles tivessem tanto interesse em poesia. Foi muito rico perceber o quanto eles tinham para contar quando descobriram que podiam transformar suas vivências em versos”, afirmou.

Segundo ela, as oficinas aconteceram duas vezes por semana em cada escola participante. Além de apresentar conceitos básicos de poesia, os encontros incentivaram os estudantes a registrar memórias, alegrias, desafios e sonhos.

“Eles aprenderam a colocar as vivências, as alegrias e até as mágoas no papel. Muitos se descobriram escritores. Isso é transformador”, destacou.

Educação que transforma vidas

A secretária de Educação, Ana Paula Santos, destacou que a Educação de Jovens e Adultos possui características únicas e exige um olhar humanizado por parte dos educadores.

“Quando uma pessoa que nunca teve acesso à escola consegue escrever o próprio nome, aquilo já representa uma grande conquista. É uma descoberta do mundo. A EJA transforma vidas”, afirmou.

Segundo a secretária, o projeto nasceu da necessidade de registrar e compartilhar histórias que normalmente permanecem invisíveis.

“O Escrevivências veio para tornar as histórias de cada um em aprendizado para outras pessoas”, disse.

No prefácio da obra, Ana Paula define o livro como um retrato da força dos estudantes da modalidade.

“Prosa que Ensina, Vida que Inspira nasce do coração da Educação de Jovens e Adultos de Cotia e revela a força de quem acredita que aprender é possível em qualquer tempo da vida.”

Juliano Barbosa

Histórias de vida que viraram literatura

Entre os novos autores está Jacinta Lima, que ingressou na Educação de Jovens e Adultos no ano passado e participou da produção do livro contando um pouco da própria história em forma de poesia.

Ao receber o exemplar com seu texto publicado, ela celebrou uma conquista que, durante muitos anos, parecia distante.

“Nunca estudei. É a primeira vez que eu tenho a oportunidade de estudar. Estou amando. Os professores apoiam a gente muito bem, têm carinho e muita paciência”, contou.

Jacinta afirma que nunca imaginou se tornar autora de um livro. Incentivada pelo professor César, aceitou o desafio de participar do projeto e descobriu na escrita uma nova forma de expressão.

“Foi muito legal. Contei um pouquinho da minha história”, disse, emocionada.

Aos 52 anos, Maria Neide, aluna da Escola Municipal Professor Osny, voltou à sala de aula depois de uma vida inteira marcada por responsabilidades familiares e trabalho. Quando criança, precisou abandonar os estudos para ajudar o pai.

“Meu pai tirou a gente da escola para ajudar na roça. Depois me casei, tive filhos e não tive oportunidade de estudar. Eu tinha vontade de aprender, de fazer minhas coisas, de ser independente”, contou.

Hoje, ela celebra conquistas que para muitos parecem simples, mas que para ela representam liberdade e autonomia. “Agora aprendi. Até sei fazer Pix”, disse, sorrindo.

Outra autora da obra é Normaci Lima. Natural da Bahia, ela nunca havia frequentado a escola. Teve apenas uma alfabetização informal, ensinada por uma pessoa conhecida. Durante anos, tentou estudar, mas encontrou resistência dentro da própria família.

“Eu queria ir para a escola, mas meu marido não deixava”, relembrou.

Após a separação, decidiu recomeçar. Em 2025, ingressou na EJA e passou a construir uma nova relação com a leitura e a escrita. Participar de um livro foi algo que jamais imaginou.

“Nem eu acredito que estou aqui hoje, que está acontecendo isso comigo”, afirmou emocionada durante o lançamento.

Emoção e orgulho dos novos autores

Cerca de 150 alunos participaram da construção da obra, que também contou com contribuições de professores, auxiliares e agentes escolares. Algumas ilustrações presentes no livro foram produzidas pelos próprios estudantes.

Durante o lançamento, a emoção era visível nos olhares dos novos autores. Ao todo, foram produzidos 140 exemplares, que foram distribuídos aos participantes e também ficarão disponíveis nas escolas municipais.

Diante do sucesso da iniciativa, a Secretaria de Educação já confirmou uma segunda edição do projeto e estuda ampliar as ações literárias para outras etapas da rede municipal.

Juliano Barbsosa
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