Chuva dá trégua e Cotia sai do estado de alerta

Cotia vive o setembro mais chuvoso dos últimos 10 anos. Apesar da trégua, Defesa Civil mantém monitoramento devido solo permanecer encharcado. Especialista explica.
Quarta-feira amanheceu sem chuva em Cotia / Sonia Marques

Depois de dias de chuva intensa, Cotia finalmente registra uma trégua. O volume acumulado caiu significativamente e o município deixou de aparecer entre as cidades com índices relevantes de chuva no último relatório do Centro de Gerenciamento de Emergências (CGE), divulgado pela Defesa Civil. 

De acordo com o levantamento, o acumulado registrado em Cotia nas últimas 48 horas caiu de 90 mm, na manhã de terça-feira (15), para 18 mm nesta quarta-feira (16). Nas últimas 24 horas, foram registrados apenas 5 mm de chuva. 

Segundo o CGE, Cotia não foi incluída na relação de acumulados significativos das últimas 72 horas justamente “em razão da ausência de novos índices significativos”. 

“Essa redução representa um grande alívio para todos nós, contribuindo para a diminuição dos riscos de alagamentos e enchentes em córregos e rios”, afirmou o secretário da Defesa Civil de Cotia, Marcos Nena. 

Apesar da melhora nas condições climáticas, as equipes continuam acompanhando a situação no município. Isso porque, depois do grande volume de chuva registrado nos últimos dias, o solo permanece encharcado e ainda pode oferecer riscos, especialmente em áreas de encosta e próximas às margens de rios e córregos. 

Ana Paula Botelho, Engenheira Ambiental, explica Solo encharcdo e destaca importância da conciência ambiental de cada cotiano / Caio Fernando

Mas o que significa solo encharcado? 

A engenheira ambiental Ana Paula Botelho, da Secretaria do Meio Ambiente de Cotia, explica que, em condições normais, existem pequenos espaços vazios no solo preenchidos por ar. À medida que chove, esses espaços passam a ser ocupados pela água. 

Quando o solo chega ao chamado ponto de saturação, já não consegue absorver mais água. A partir daí, a chuva passa a escoar pela superfície. 

“O solo vai recebendo a água até atingir sua saturação máxima. A partir daí, não há mais infiltração e a água começa a escoar por cima. É nesse momento que acende o sinal de alerta, porque o solo fica mais suscetível a desmoronamentos”, explica Ana Paula. 

O risco merece atenção especial nas proximidades de rios e córregos. Com o solo saturado, as margens podem perder estabilidade e sofrer deslizamentos, colocando em risco construções próximas. 

A engenheira explica que um dos sinais que podem ser percebidos pela própria população é a presença persistente de água sobre terrenos que normalmente conseguiriam absorvê-la. “Quando a pessoa pisa no terreno e percebe água acumulada na superfície, formando poças mesmo sem chuva naquele momento, isso pode indicar que o solo está com elevada quantidade de água”.  

E quanto tempo o solo leva para secar? 

Não existe uma resposta única. O tempo necessário para que o solo volte a condições normais depende de diversos fatores, especialmente de sua composição. 

Solos mais argilosos tendem a reter água por mais tempo. Já nos solos mais arenosos, a drenagem costuma ocorrer mais rapidamente. “Por isso, mesmo depois de a chuva parar, os efeitos de um período de precipitações intensas podem permanecer por algum tempo”.  

É justamente por isso que a Defesa Civil mantém o acompanhamento das áreas mais vulneráveis, mesmo com a forte redução dos acumulados de chuva. 

Cada um pode fazer a sua parte

Importante ressaltar que os episódios de chuva intensa também reforçam a importância dos cuidados cotidianos com a cidade e com o meio ambiente. Pequenas atitudes individuais, multiplicadas por milhares de moradores, ajudam a manter os sistemas de drenagem funcionando e a reduzir problemas durante períodos de chuva. 

“Não jogar lixo nas ruas, rios e córregos; dar destinação correta a móveis, entulho e outros resíduos; não obstruir bueiros e sistemas de drenagem; preservar árvores, áreas verdes e a vegetação próxima aos cursos d’água; e comunicar aos órgãos municipais situações de risco são atitudes que fazem diferença”, alerta a engenheira ambiental. 

Cuidar da cidade também é uma forma de prevenção. “A intensidade da chuva não está nas mãos de cada cidadão, mas preservar o meio ambiente e evitar ações que agravem seus impactos é uma responsabilidade que pode ser compartilhada por todos”.  

Setembro mais chuvoso da década 

As fortes chuvas que atingiram Cotia nos primeiros dias de setembro de 2026 já colocam o mês muito acima do volume normalmente registrado neste período do ano. Em apenas 14 dias, o acumulado médio medido pelos pluviômetros do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) considerados válidos para o levantamento chegou a 204 mm. 

O volume é quase quatro vezes maior que a média dos meses de setembro dos últimos dez anos. 

Levantamento realizado a partir dos arquivos históricos disponibilizados pelo Cemaden mostra que, entre 2016 e 2025, a média de chuva registrada nos meses completos de setembro em Cotia foi de 52,9 mm. 

Isso significa que, mesmo antes de chegar à metade do mês, setembro de 2026 já registrava 3,86 vezes a média dos últimos dez anos, ficando aproximadamente 286% acima dela. 

A comparação ano a ano reforça a excepcionalidade das chuvas deste mês. 

Nos dez anos anteriores, setembro de 2022 apresentou o maior acumulado médio entre os pluviômetros considerados no levantamento, com 136,4 mm. 

Mesmo comparando apenas os primeiros 14 dias de 2026 com meses completos dos anos anteriores, o volume deste ano, de 204 mm, já é aproximadamente 49,5% superior ao registrado em setembro de 2022. 

Cotia conta com sete pluviômetros automáticos cadastrados na rede do Cemaden, distribuídos por diferentes regiões do município. Entre as localidades que aparecem na rede estão Monte Catine, Caucaia do Alto, Jardim Adelina, Santa Isabel, Rio Cotia, Parque Miguel Mirizola e Morro Grande. 

A existência de equipamentos em diferentes pontos é importante porque a chuva não se distribui de maneira uniforme pelo território. Uma região pode receber grande volume de água enquanto outra, a poucos quilômetros de distância, registra quantidade significativamente menor. 

Além disso, nem todos os equipamentos apresentaram registros completos durante todos os meses analisados. Houve pluviômetros com interrupções de transmissão, início ou encerramento de registros no decorrer do mês ou dados incompatíveis com as demais estações. 

Por esse motivo, o número de equipamentos utilizados no levantamento varia de um ano para outro. 

Em 2016, 2017, 2018, 2020 e 2022, por exemplo, seis pluviômetros apresentaram dados aproveitáveis para a comparação. Em 2019, 2021 e 2023 foram cinco; em 2024, quatro; e em 2025, três. 

Para o período entre 1º e 14 de setembro de 2026, três pluviômetros apresentaram registros contínuos durante todo o intervalo analisado. 

Chuva acumulada em setembro na década 

Ano  Acumulado médio  Pluviômetros utilizados 
2016  23,7 mm  6 
2017  31,2 mm  6 
2018  77,0 mm  6 
2019  68,9 mm  5 
2020  17,1 mm  6 
2021  20,5 mm  5 
2022  136,4 mm  6 
2023  64,1 mm  5 
2024  33,3 mm  4 
2025  56,3 mm  3 
2026, até 14/9  204,0 mm  3 
Média dos meses de setembro entre 2016 e 2025: 52,9 mm. 
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